segunda-feira, 27 de junho de 2011

O MENINO INTEMPORAL

 Maria Helena Ventura*

Dobrar as páginas de O Menino quase Perdido, do escritor, crítico, ensaísta Francisco Miguel de Moura, é desembrulhar um cordão luminoso de memórias coadas pelo tempo, numa viagem ao espaço emocional da Infância.
 
Pelo caminho de regresso a esse útero materno, o autor varre a poeira das lembranças tristes, uma tristeza imprecisa e doce, em busca de um matiz que estando gasto, consegue ainda colorir, como nenhum outro, paisagens monocromáticas.

Com ele descobrimos as cores, os cheiros, as vozes, e mais que tudo os afectos que fortalecem a personalidade. Porque as trinta e cinco narrativas, num discurso livre da rigidez de formatos, de um realismo salpicado de ternura, são unidas por um cordão de emoções. 

Com uma singular capacidade de retirar o invariável, a matéria constante, da variedade de experiências, como faria Lévy-Strauss, nunca o ressentimento mancha as palavras de Francisco Miguel de Moura nesta busca de sentido para os desvãos do tempo, desde que era menino até à eternidade de crescer. A ponte que une presente e passado é o Amor, um Amor transfigurador, fortalecido pela vontade do autor o identificar até nos piores momentos. 

A rigidez do pai é entendida como função de todos os pais coevos, absorvidos pela obrigação de providenciar o sustento; a doçura da mãe não se dilui nas chineladas merecidas pelas tropelias, será sempre lembrada com um coração de anjo. E até os beliscões do primo Zezinho são perdoados à luz da sua pouca idade para o carregar, logo compensados por lampejos de ternura quando revisitadas as histórias de caçadas sentado nas pernas do avô Sinhô do Diogo. 

São esses instantâneos que perduram, embrulhados na mesma gratidão por todos os que ajudaram na travessia de rios tormentosos. Por isso o menino ainda mora no coração do escritor. De mão dada com ele, em busca da nossa própria infância, recuperamos o espaço da inocência por um processo de alquimia literária, conscientes da urgência em retroceder reflexivamente até ao refúgio primordial, à fonte onde bebemos um sentido antigo, quase inconsciente, para as escolhas urgentes.

Agora domesticado o medo, e porque acreditamos no que escreve, cruzamos as veredas até Morro Pelado, Curral Novo, arredores de Conceição. E avistamos no altiplano a casa de taipa coberta de telhas, o rio serpenteando lá em baixo, os pés marcados na areia, os plantios na vazante do Guaribas.

Vislumbramos ainda a escola improvisada à sombra do juazeiro, as brincadeiras de faz-de-conta sob a frescura das mangueiras, o horizonte raiado de vermelho no morrer da tarde, para lá da mancha verde do capim.

A magia da escrita de Francisco Miguel de Moura é mesmo essa, conseguir levar-nos pelo tracejado das próprias memórias, saudando pelo caminho gerações de mortos que nunca hão-de morrer, até às paisagens eternizadas no silêncio do coração.

No fundo dessa tessitura de palavras e afectos, descobrimos ainda a integridade do homem menino que um dia plantou tabatinga sem saber que viria a colher poesia, reconhecemos a salutar curiosidade de um intelectual que, tapando os buracos da existência com respostas, vai escavando outros buracos, mais perguntas para responder, construindo ao lado montanhas que não se nega a escalar.

O Menino quase Perdido é ainda um ponto de partida para vários reencontros com o talento literário de Francisco Miguel de Moura. Todas as dimensões da escrita ele domina. É o cronista, o relator de experiências esmaecidas pelo tempo. Recuperando depois o material moldado pelo afecto, transforma-o em contos de saboroso recorte, deixando adivinhar o ficcionista que, ao uni-los pela mesma metodologia com que se elabora um álbum fotográfico, estrutura mais tarde uma narrativa em jeito de romance. A personagem principal é o menino Xico em evocação das lembranças, com veneração por parentes e lugares. Daí que a narrativa seja levada até ao leitor com a chancela de um memorial.

A capacidade de descrever experiências e paisagens, inventar mundos, reinventar caminhadas, não apaga a candura do menino intemporal, que recupera o ritmo bíblico da primeira infância à flor das emoções. Essa candura, que emana de tanta sensibilidade, assentou morada neste ser humano de grande dimensão sem sofrer a erosão do tempo. Como diria Pessoa, que a vida por mim passe, logo que eu fique o mesmo. E o menino Xico ficou.

Saúdo o seu talento multifacetado, o seu espírito generoso e aberto a tudo o que o rodeia. A Terra é um lugar melhor com pessoas como Francisco Miguel de Moura, residente em Teresina, lá onde o céu deve alcançar.
 
Portugal, 16 de junho de 2011.                                   
_________________________
  1. *Maria Helena Ventura, Escritora, membro da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade de Geografia de Lisboa e da IWA – International Writers and Artists Association, Toledo, OH, Estados Unidos


4 comentários:

Welton Martins disse...

Muito interessante o blog. excelente materia. valeu mesmo!
http://www.dinheirovipmais.com

Gisa disse...

Coisa gostosa o tom dessas doces palavras a teu respeito. Merecidas com certeza!
Um beijo e muita admiração.

Nayara disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Malu disse...

Com ele descobrimos as cores, os cheiros, as vozes, e mais que tudo os afectos que fortalecem a personalidade. Porque as trinta e cinco narrativas, num discurso livre da rigidez de formatos, de um realismo salpicado de ternura, são unidas por um cordão de emoções.
Que possibilidades fantásticas para contimuar a andar pelos dias que sempre restam...
Abraços

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