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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

OPOSTAS APOSTAS

Francisco Miguel de Moura*


A aranha tece e retece,
e não para nem cansa,
emaranha-se na teia
e dança. Até descer.

O espelho mostra o irreal,
direito x esquerda,
e quem sabe não aposta
em tantos mais erros?

O homem, como se não visse,
desconhece a face de ontem,
desde que emoção alguma,
o mundo em redor lhe pinte.

A mulher aparece e logo vê
tudo em redor. E desaparece
para voltar, sentir-se amor
e depois refletir e parecer.

Em suma, todos nós viventes,
gente, animal ou cousa,
apostamos no impossível.    

_______________
* Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em Teresina, Piauí, Brasil – e-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com

sábado, 5 de julho de 2014

FRANCISCO MIGUEL DE MOURA - NOVOS POEMAS

 Francisco Miguel de Moura*

A PALAVRA E O POETA



Entranhar-se na  palavra
Arrebentá-la até a morte,
Para o renascimento do poema.

Rasgar o travo da garganta,
Quebrar as traves corpo e alma,
Engolir todos os alfabetos,
Vomitar certezas, beber olhares
Pelos rios mares e cidades.

Cada palavra é um abismo,
Cada som uma nova história,
Como na música e na dança
Dos loucos e dos mansos.

Apunhalada a pedra de tropeço,
O poeta grita heureca! heureca!
Descobriu o mistério dos homens.
E transporta-se ao Olimpo
Porque o poema está perto.


CONSTRUÇÃO

                     

As mãos criam calos
E os olhos, lágrimas.
O estômago, seca e come o diário feijão.
Há que espantar, com pedras, os pássaros
Que venham roubar o brilho dos botões.
Há que chamar o vento e pedir ao sol
Calor e luz pra secar as palavras.

Não se faz um poema com dois paus
Como se arma uma armadilha vã.
Não se faz um poema em supetão.
Um poema precisa de anos a fio,
E da ajuda de velhos poetas passados.
Não se faz só com água, palavra e vontade,
É preciso ter força. E como é que ela vem?
Não se sabe nem donde, parece milagre.

Um poema é feito de suor, lágrimas, sangue
Em anos curado...  Mais sangue que alma,



MANHÃ E POEMA



Reverberar do alvor (e) ser,
viva a terra o direito de amar!
O cego vê, Deus se extasia.

O poeta alavanca palavras,
arreda nuvens,
destravando o olhar.

O poema silencia o trovão
quando o raio da palavra espedaça o ar.

A manhã se clareia para que a nau
trabalhe e acenda o peito de cada um.

Eis que o poema se desvirgina
e que vida e movimento se declaram
canção.



CRUELDADE



Nascer – alguém à beira do berço
sem um sorriso, de chegada;
morrer – sem olhos tristes, fundos,
mas consoladores, conformados;
viver sem um propósito sequer,
que seja o de amar sem ser amado.
A vida não é um lindo amanhecer,
nem no espelho – um espetáculo
como quem foge do calor do lar.

A vida será crueldade?

Cruel é um silêncio impositivo:
não ter a quem falar ou dizer “ai!”
Cruel é ter a boca e não poder beijar,
ouvidos ter e não poder ouvir,
de olhos abertos – nada ver, olhar...

Cruel é ser alguém e não saber amar.



DEPOIS DA MADRUGADA



Olhos de sono tirem a remela.
A vida é uma enseada enquanto vida,
enquanto bela.

Entre (m) velas,
abelhas, folhas, jardim, avatares.
Não se deixe (m) picar
de fome e boutades.
Um raio ilumina
a manhã... As borboletas lentas
e as que voam, enquanto há desalento,
tentam o poema...
E como voa (m)
em livres versos leite e mel!

O sereno sobe e some, em suma,
e o sol, divino apenas como a água,
gota a gota  cai sem demasia.

Até que o escuro consumido se evapore.



DESCONSTRUÇÃO



Eis o que perpassa!... Anda a construção
duma história sem nome nem cabeça.
Outros lavram seu pedaço de chão.
São traços de rosários invisíveis,
movimentos ágeis de artesãos
fazendo santos, anjos, deuses,
no consenso das noites e dos dias.

Minha reza não vale a ideologia
dispersa no abismo das vaidades,
trocas e bombas... Confusão! Cuidado!

Na fábrica, o silêncio não se mede,
Nem à sábia sensibilidade das mãos
nem à explosão criativa das estrelas.

Barulho e sinfonia aqui se irmanam:
desconstrução de um invisível deus.
__________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, com 81 anos em atividade. Poemas inéditos que brevemente serão publicados em livro.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Francisco Miguel de Moura -MEDITAÇÕES

MEDITAÇÕES

Francisco Miguel de Moura*


Eis-me de novo na manhã nublada.

Espero o sol naquela ponta,
A luz me mostra os espinhos
Doloridos na pele
E de sua passagem por minhas veredas.
Passagem? A dor nunca passa,
É um ferro na alma,
Faz que desaparece no azáfama do dia,
No suor do trabalho
De quem inda tem fé
E esperança a seguir, a seguir.

Então enxergo no outro
Que a vida é doce,
Que o sol é doce,
Que o mundo se clareia
Em delícias invisíveis.

Só preciso viver e ver para afastar
Do peito a angústia de viver
Quando perdi o que não tinha
Que perder.

Agora sei o que é nada querer
E encontrando, não encontrar.
_________________
* Francisco Miguel de Moura, poeta, romancista, cronista, contista e crítico da literatura brasileira, nasceu no Piauí, onde mora atualmente (Teresina - Capital), mas já andou e viveu por outras terras, exemplos: Salvador (BA) e Rio de Janeiro (RJ).

domingo, 15 de dezembro de 2013

CONFESSO QUE SOU TRISTE

Francisco Miguel de Moura*


De tristezas sem motivo
Que me chegam ao pêlo, em doce vento,
Como a todos numa terra triste,
Entre risadas e chistes sem temas.

As almas se enrugam e envilecem
Na ferrugem das honras e lavras
Que inocentemente o relógio
Canta, decanta e descarta.

Tristeza - “condition humaine”,
Carência de pinto na chuva,
Ao pé da cerca, em tremor e frio.

Busco a galinha como o pinto
No seu choroso tititi.
A minha é bem mais penas:
Descanso que se cansa,
Alegria que entristece,
Sonhos que anoitecem sem paixão
(onde morremos seus pesadelos).

No último suspiro, o abraço de Deus
E o desencanto do conto que passou.


______________________
 * Francisco Miguel de Moura, poeta de poucas palavras na tribuna dos homens e de muitas palavras no palanque dos espíritos.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A QUINTA FORMA DO AMOR

Francisco Miguel de Moura*

Membro da Academia Piauiense de Letras
e da International Writers and Artists 
Association - IWA


Nunca almejei amor tão diferente
Das formas já pensadas pelos gregos
Filósofos e sábios - não labregos:
Pensei viver amor sem convenções.

Só queria a verdade, mas a mente,
No  olhar, no sorriso e na tristeza,
Na beleza do ser e na grandeza,
Não guarda vivamente os corações.

Só desejei viver o amor amante,
Corpo e alma gozar sem tradição,
Porém caí num fosso... Ai, breve instante!

Eis que a aventura trouxe-me um deserto:
Não rompi as correntes, não deu certo
Levar tão longe a grande aspiração. 

                       Teresina,  20-4-2013

_____________
 *Francisco Miguel de Moura é um poeta do mundo inteiro, justo por que
  poeta não tem pátria, sua casa é a imaginação: poetas têm sonhos e versos.

terça-feira, 19 de março de 2013

A FLOR LILÁS E O BEIJA-FLOR

Verinha Portela*


Ao andar pelo vale verde de minha terra
a folhagem gemia com a pressão dos meus passos
o aroma crescia, alastrava-se no ar
uma carícia envolvente na alma da gente,
frutos pendendo das árvores
pareciam dizer
pássaros do céu,habitantes alados
vinde, tudo isso é seu...
A abóboda do céu era de um azul
Fosforescente, deslumbrante
ouvia-se quero-queros, no silêncio
anunciando minha presença.
Uma paz tomou conta de meu ser inteiro
lembrei-me de quando era ainda menina
e me sentia só neste lugar...
e tinha sonhos em outros horizontes...
A alguns passos a frente me deparei
com uma linda flor lilás...
completamente escondida entre as folhagens
do arbusto copado... Era de uma beleza sem igual
pétalas aveludadas e cheirosas...
Mas solitária...única...naquele lugar
Fiquei triste com sua aparente solidão
foi quando de repente ouvi um bater de asas frenético
e feliz... Um beija flor cintilante chegou e a beijou
várias vezes, dançou com ela, foi e voltou
repetindo o ritual sem parar...
Naquele momento percebi meu engano...
Não estava só
Ali era seu lugar
Era feliz...tinha um amor...


__________________________________
*Vera Portella (Verinha Portella) é admiradora da poesia e dos poetas, sendo também poeta da beleza, da simplicidade, do amor e da paz, com toques ligeiros de sensualidade, num discurso cuja simplicidade nós admiramos. Este poema foi copiado do seu blog:http://vera-portella.blogspot.com.

sábado, 16 de março de 2013

MENINA PESTE!

             
 Francisco Miguel de Moura*



Há mais gosto em tuas frutas
que nos frutos que tu comes
e eu vejo só a cor e o cheiro
de tuas vestes

O sabor me dizes:
- É agreste!

Se eu comesse inteira
do teu corpo a roupa,
minha língua
ainda ficaria
com fome e sede,
com vontade do teu poder
de transformar o que comes
na saliva do meu gosto.

Até babo só de gozo
de nem a água de tua boca
poder beber.

- Peste! Ai, peste!

_________________________
*francisco miguel de moura, poeta e escritor brasileiro, mora em teresina, piauí

domingo, 10 de março de 2013

PAISAGEM DA ILUSÃO



 Francisco Miguel de Moura



Do terraço, o velho vê a nudez da rua,
Sentado como está: edifícios pelo meio
Como se suspensos no ar – um outro chão.
São cogumelos que surgem da terra
Nascidos ou expulsos?
Sabe não.  Melhor nem querer...
E por não saber põe luz na estrada
Onde pisa com a vista gulosa
Dos tempos em que árvores
Baloiçavam o horizonte.

Agora, tudo o que sente é pelos pés
Longe do chão.

                       Teresina, 8 de março de 2013.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

DESESPERO

   Ao poeta Fernando Pessoa
      e  também para Janice Adja


Deixem-me respirar completamente,
Depois de sorver a vida e seus finitos,
Deixem-me vagar a passos, vulgarmente,
Por todas as cidades, vilas e distritos.

Deixo a vocês, todos vocês canalhas,
Lixo, gomas, sujos, sarros e detritos
Do que vivi, sonhei, amei perdidamente.

Não quero ver meus nomes mal escritos,
Nem palavras ouvir que sejam gritos.

Deixem-me voar, saltando e não bonito,
Vão-se todos da praia onde eu me espraio
Ouvindo a músico dos surdos e a palavra
Dos proscritos.

Grito de dor, de medo... Ou silício de paz?
Irei soltar tribalmente onde ninguém me ouça,
Pois juro que ao universo pouco ligo
Como quem é capaz de ouvir besouros
Roendo o teto, sem perder o juízo.

A eternidade inteira, inteiramente nu,
Na escuridão que é luz dos homens mansos,
Ficarei completamente ignorante (e ignorado)
do presente, do passado e do futuro.

                      Francisco Miguel de Moura – poeta brasileiro, mora em Teresina, Piauí, Brasil.
                                                                                        Em 13/03/2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

POEMA ALEGRE

 Francisco Miguel de Moura*


Não daqueles em que todo mundo sorri.
Quero fazer um poema alegre,
Da cor do ar branco que respira vida,
Enrolado num arco-íres de cores variadas,
Até as inexistentes, por mim agora criadas:
A negra (que é negação) e a meio-negra (gris):
Poema de olhos azuis, castanhos, verdes,
De olhos que brilhem como as estrelas
E nos pespeguem como o lodo.
E vejam... – Todos os cegos poderão ver,
Todos os coxos poderão andar.
Poema pele sensível até o último fio de cabelo,
De ouvidos sonoros a todos os sons e ruídos,
De narizes que sintam o cheiro da alma,
Do espírito puro de Deus pairando sobre o mundo.
De lábios que se beijem com gosto e carícia,
De línguas que sintam o gosto mais doce
Em todos os amargos, azedos e salgados,
Como as águas das chuvas, dos ares e mares,
Como a alegria das telhas nas noites calmas,
Em cada casa, em cada jardim redivivo.
Poema balançado na rede, pelo vento,
Pelas pessoas amando e brincando...

Para ser feliz,
Este é o meu poema pleno,
Se ainda não o encontramos é possível
Que um dia alcançaremos
Na paz do novo arco-íres 
Que ainda nos espera.

__________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, o experimentador de novas formas dentro das velhas tradições. Poeta nato, escreve todo dia, desde que nasceu.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

OLHOS - POEMAS QUE FALAM

FRANCISCO 
MIGUEL DE MOURA*


Teus olhos me cansaram por te ver
Tão desejosa de falar... Ou mentes?
Já os meus, quase mortos ou descrentes
                  Emudeceram
            Nunca para sempre.

Uma vez acesos, olhos não se apagam,
Bocas não se calam quando a cor
Do amor
E da esperança pregam-se
No tinto da pele e na flor dos cabelos.

Mesmo em cicíos falam
Aquilo que em silêncio é desperdício.


 **********************
*Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador brasileiro, mora em Teresina, Piauí.



sábado, 1 de setembro de 2012

POEMA DOS DEDOS

Francisco Miguel de Moura*

Se o dedo do poeta doi
É pelo dedo de Deus,
Possuindo o homem.

Se o mundo escurece,
Se o mundo padece
Por seus próprios golpes,
Onde o dedo de Deus?

Na dor aflita do homem?
Na mão do próprio Deus?
        Como?

Dedos tremem a toda incerteza.

______________
* Francisco Miguel de Moura,poeta brasileiro, email: franciscomigueldemoura@gmail.com

sábado, 25 de agosto de 2012

UM SONHO QUE NÃO SONHEI

As noites todas são minhas noites
Acordo sozinho como nasci
Feito um narciso da escuridão.
Tento um retrato ver no espelho
E tudo é preto, lado sim ou não.

Olho e me deito, olhos fechados.
E desta forma, que olhar alcança
Escuros ou cores? Resmungo e dor?
Nenhuma voz me esclarece nada,
Cego e surdo, como eu me respondo?
Estou num muro? Ou um muro sou?

Antigos dias já me acordaram
Sem nuvem, neblina... Só raios de sol,
Cheiro de café quente da manhã,
Gosto de mulher que a gente beijava
E desejava muito, era mais da conta,
Cheiro que vinha, mas ela não vinha.
Pelos caminhos da praia... Ou ondas!

Tudo se foi... O que vejo, agora?
O céu nublado, escuro ao redor,
Se isto me faz a vida, a linguagem:
Carne, osso, sangue preso e cativo
Das recolhidas paixões e amores...

Serei quem sou? Um morto e lascivo?
                                                                             
                                ****************                                       

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em Teresina-PI-Brasil.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

AINDA RESTAM CANÇÕES E FLORES

Francisco Miguel de Moura*


ainda restam canções e flores
quando a janela passa vazia
ainda restam vozes de amor
repondo-as dentro, ao pé da pia
lavando a boca na água fria
com olhos de sono e de remela
dos pesadelos e estertores

ainda restam palavaras livres
na cor melosa dos ditirambos
                
e na saudade das cicatrizes
o olho da rua tem seus fulgores
e o amor não morre suicida

ainda restam canções e flores

_____________________
* Francisco Miguel de Moura, poema para os desesperados do amor - há sempre uma esperança, basta esperar e ficar de olho.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

MEU OUTRO RIO


Francisco Miguel de Moura*   






Nos longes de mim, outro rio miro,
Riacho seco de ontem. E o admiro.
No verão, branco banco de  areia,
Na noite, um só mar de lua cheia.

Banho de cuia e cacimba,
Infância, dor, faltava rima.

Este rio, hen-hen, é outrou rio
Que recebe outros e meu rio.
Este aqui rio é um caudal medonho,
Rio rico de sonhos, do meu sonho.

Banho de cuia e de cacimba,
Jumento, paixão  e rima.

Meu riacho correndo para os rios
(levando  cuia e  cacimba).
Rios grandes correndo para o mar
(jumento rinchando rimas),
Nos deixando sozinhos, secos, fios.

Ai que saudade arretada, minha gente!


-------------------------------------
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, este poema faz parte do seu quarto livro "Bar Carnaúbba", publicado pela Universidade Federal do Piaui

sexta-feira, 8 de junho de 2012

BUSCA E VERDADE

Francisco Miguel de Moura*


Na busca da verdade, o homem pensa
seu pensamento ser dos mais humanos, 
e nisto leva dias, meses, anos!...
E, cegamente, agindo sem detença.

No seu pensar existe a força imensa
de compreender os genes desumanos,
pelo perdão negado. Ah! desenganos
dos insensíveis traços... Desavenças.!

É o sofrimento em tudo e  em toda a idade,
nulificando "o ego” e a liberdade,
desconhecendo o amor... Ainda duvida?

Não lembram que  foi Cristo, a divindade,
Quem "urbe et orbe" disse, com piedade:
“Sou o caminho, a verdade e a vida”?

_________________________
* Sonetista piauiense, autor também de outros tipos de poemas, obras de ficação e crítica literária. Não tem inimigos,apenas os gratuitos, que ninguém sabe onde se escondem. E mesmos estes todos já estão perdoados.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

POEMA DE ROSIDELMA FRAGA

Orgasmo

Rosidelma Fraga*
(e-mail: rosidelmapoeta@yahoo.com.br)

***
Saio de meu verso
como quem tira o roupão.
Cristalizo a voz rouca do poema
como alguém que fechou
o botão do vestido
e desnudou-se frente ao espelho.

Algumas vezes a poesia
tentou fechar o zíper
e conteve-se na fenda das coxas.
Mas minhas mãos rasgaram
cada letra como quem descostura
o tecido traçado a longos cortes.

Entro em meu poema
como quem perdeu as dobras,
os alinhavos e saiu nua...

Visto o orgasmo de metáforas
para adornar o verso amante
que por mim ansiava
com vinhos, incenso e flores
na cama do desejo lírico.  
***

*Rosidelma Fraga, professora, escritora, atualmente mora em Goiâia - GO. O poema "Orgasmo", lírica e estililsticamente bem construido, é o que não parece e parece o que não é: sensual para os poemas dessa natureza, mas não propriamente erótico, no sentido em que o livro de Drummond, publicado,  postumamente, nesse estilo, possa ser considerado padrão. Atende à grande criatividade da autora, que, apesar de nova, já demonstra uma poética bastante segura e consciente.(fmm)

P.S.: - A foto que ilustra esta matéria foi colhida na internet e publicada com autorização da autora do poema

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

SONHOS DO NATAL E ANO NOVO






francisco
miguel 
de
moura



aos amigos e leitores
    

 
Não se pense o Natal maior do que é:
Um dia, uma noite, uma festa ou a recordação.
Jesus chegou dois mil anos antes
Mas veio o Papai Noel atrapalhar.
Tudo é dinheiro,
Até o tempo que sofremos,
O dia branco e a noite só,
O minuto que amamos,
A eternidade que choramos
E a morte que nos leva.

Todo dia é um dia novo,
Não depende do Natal, nem da Missa do Galo,
Não depende da mudança do calendário.
Quando nele se pensa, já mudou,
Quando se vai ao banheiro, já mudou...

O tempo nos governa em altos juros
De suor, sangue e salário.

Natal, Ano Novo passaram e ninguém não viu...
Tudo é tão veloz!
- Antes de chegar, quem sabe o que é novo?

Todos os sonhos morrem no seco,
Sem chegada, sem saída, sem beco.
                            
                    Teresina, 23/12/2011.
              Francisco Miguel de Moura 
                       Poeta brasileiro

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

POEMAS DE ROSIDELMA FRAGA

Rosidelma Fraga*  

FABULOSO XICO

para meu amigo poeta, francisco miguel de moura

Fabuloso Xico,
Aurora do Parnaíba
Bruma de Areias...
Um dia vestiu e bebeu poesia
Lavrou canções e reinventou-se.
Outrora foi flamingo nas asas de um menino
Sempre vivo: metade rio, metade sol...
O Parnaíba até sorriu
de teus olhos azuis
abraçados na cor do mar.

Por celebrar a ti, Xico,
minhas mãos desnudam em canto piauiense,
em versos de minha índia terra...

Em alma desmedida, quase fábula, quase prosa...
Derramo as gotas de palavras, a ti menino,
o quase perdido,
uma vez achado,
jamais esquecido.


POEMA 1
        
Se acaso a mão fechar os olhos
de meus versos intermináveis...
Se porventura
o verbo imperfeito
tocar a valsa de Natal,
no saltério de dez cordas...

Saltarei do crepúsculo
de meus dias
e navegarei para além do além-céu...

Das galáxias darei as costas
aos livros que não escrevi
E vestirei o germinar da poesia
nas asas do querubim.


POEMA 2

Se amanhã eu escrever que te espero,
sem pressa ou voluptuosos delírios,
sem olhar o devaneio do inaudito silêncio
ou a suja poesia que amassei no lixo?

Se eu escrever a epifania da tua aura,
da alma borbulhando no fogaréu?

E se eu pintar o verso erótico mais puro,
sem nunca ter dito a palavra AMOR?
Não sei se escrevo ou se escondo o verbo...
AMOR é substantivo abstrato e intransitável.

Declaro, enfim, que meu verso romântico
se perdeu na lama da escuridão
e voou nas chamas de tua ausência,
a virgem amante de todos os meus dias.


POEMA 3

Por trás de cada verso mudo,
quero visitar
a pele suada da poesia,
o olhar sem plumas do mendigo,
a última utopia em flor,
o vago escuro da solidão
e a nudez do silêncio em mim.

Por trás da visitação,
quero abraçar
o chão,
o riso,
a nostalgia
e o minuto eterno da palavra LEMBRANÇA.

Por trás da linha do fim,
quero dar adeus à vermelha poesia...
E a minha ausência fará sentido.


POEMA 4

Fiquei acorrentada
pela visitação
do anjo de asas negras
de Lúcifer com a taça quebrada.

Toquei no vinho dionisíaco
derramado
e sugado pela cigana do véu
que na lama gemia
feito a mulher de branco e feito
a última flor em chamas.

Eu que nasci poeta para beber a dor alheia,
fotografei o silêncio da cigana
e despi meu sentimento de mundo.


POESIA PRENHE   
          
De um sabiá
aleluiando
desci os outeiros
e o teu olhar de azul
vestia-se de ternura,
de luz e epifania.

Ó Anjo da noite,
Meu Amor inusitado,
quero sugar as gotas
desse minuto pleno
e prenhe qual rio de almas
em êxtase de poesia.


http://franciscomigueldemoura.blogspot.com
__________________________________
*Rosidelma Fraga, escritora brasileira, escreve ensaios, poemas e crônicas, professora, doutoranda em Literatura, mora em Goiânia - GO. 

sábado, 24 de setembro de 2011

AMOR E VIRTUDE

Francisco Miguel de Moura*


De repente aparece o sinal
De arco-íres nos olhos,
Lágrimas fluindo como um rio
De desejos reprimidos/repressores
E ela cai
Rola pelos joelhos e, ele,
Levanta-a e leva para casa,
Vai curar-lhe as feridas:
- Ele era o santo padre,
- Ela a freirinha linda.

Mas as almas se caem de quatro
As camas esperam os corpos
Como sepulturas.

Mas ... Primeiro, o natural
No matagal vizinho cheio de intempéries

Depois... Merda para a vizinha.
Alegria escondida se extravasa
Em casa bem distante.

Medo de serem ouvidos
Nos berros matando a sede,
Amando e lambuzados
À luz das estrelas
Na noite que terminou em espinhos.

Correm de manhã, quando todos dormem,
E o mundo os desconhece
voltam da lua e das estrelas.

Ele exerce toda sua sedução,
Poder e glória. O mundo os desconhece.
Ela é a mulher que cuida. E da  prece.
Do estômago à roupa,
Do beijo ao coito aberto.
O que convida ao amor
À noite, com sal e vigor.
De-sa-ver-go-nha-da-men-te.

Quando o mundo os descobre
Estão amancebados,
Cruzes, credo!
Só podem fazer o mal.
- Ninguém cruze a soleira de sua porta,
Senão vão pro inferno.

Descobrem dos dois  o antes:
Ele é padre de outra freguesia,
Ela é freira de outro convento.

Quebram-se os contratos,
Cada qual vai dormir do outro lado.

Anos, muitos anos, a figueira secou
O quintal caiu,
A casa foi engolida pela prefeitura.

Depois de muita luta
O casal foi reconhecido pelo Papa
E as virtudes antigas todas foram salvas.

Mas era tarde para o amor decente.
_______________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora no Piauí. E-mail:franciscomigueldemoura@superig.com.br


Links:
revistacirandinha.blogspot.com 
franciscomigueldemoura.blogspot.com 
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