domingo, 25 de julho de 2021


 

                                    CANÇÃOZINHA

 

 Francisco Miguel de Moura*

 

Gira, gira, o’ mundo meu,

que meu rebolo sou eu.

No embalo que baila e bole,

minha criança nasceu.

 

Se hoje penso em voltar,

só vejo o bicho papão

que vem comer o menino

já dormindo, devagar...

 

Hoje tudo que não vejo

são as rosas da roseira


e o riso da jardineira.

E o sol de meu girassol,

e a lua que não é cheia.

 

Gira, gira mundo meu...

Vá-se embora papa-ceia,

já não há lua nem ceia.

E as bolinhas de sabão

voaram sem compaixão,

quando a criança morreu.

________

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

 

foto: chico miguel

OPUS 76

                                          Humberto*

          Num dia encoberto pelo tempo das pindaíbas meu tio David me disse assim: - menino, todas as coisas já foram pensadas e ditas em jeitos e línguas diferentes em lugares diferentes... Ele disse e ficou olhando pra lua como se meio perdido e eu fiquei pensando que ele birutava. Mas ele voltou a falar e disse: quando se diz que há um tempo para cada junta na corrente da vida, isto já foi dito na Bíblia, numa parte chamada Eclesiastes. Uns dizem que foi escrito pelo décimo terceiro rei de Judá, o Ezequias; outros, que foi o terceiro rei de Israel, o Salomão, filho, sabe de quem? De David! Tu achas que eu fico com quem? Eu respondi que com David, ele morreu de rir e continuou falando:  escreveu lá que há tempo para cada coisa, cada propósito: pra nascer, pra morrer, tempo de plantar, tempo de colher, de matar, de sarar, de chorar, de rir, de gemer, de bailar... de tudo, até tempo de guerra e tempo de paz.

          Fiquei matutando sobre esta memória no dia 29 de maio de 2021 já pela madrugada, e fui catar os momentos-perfeitos da vida que já tinha um calendário de 76 aniversários, e selecionei os principais: o do nascer, o da extirpação da tumoração tuberculosa no sétimo aniversário (o primeiro a ser festejado (o que aconteceu no 28 de maio, porque no 29 seria internado para a cirurgia do tumor na cabeça grande que me deu o vulgo de cabeção e me mergulhou no coma de uma quinzena), o do vestibular, o da graduação, do casamento, o de cada filho nascido, dos livros publicados, de entrada pra APL... Aí eu me perguntei se deveria ficar triste, afinal por aí já me chamam de velho - pelas costas... Eu não fico nada contente quando entro numa fila como naquela de votação, e me chamam para entrar em primeiro lugar, passando à frente dos que chegaram antes. Numa eleição dessas teimei e não fui. Fiquei apreciando as confusões ali apoiado na tranquilidade.

          No dia 29 de maio de 2021 tomei o vinho da moderação e da sobriedade conforme as recomendações do patriarca Noé após sua notável carraspana no recomeço do mundo, e segui em frente a driblar com a Fé em Deus mais uma pandemia que está matando os homens pacatos e estupidificando em selvageria sinistra os forjadores de leis e os zelotes seus guardiães, que perderam o fio da racionalidade e o respeito a seus patrões – cada eleitor que lhes paga as desbragas prebendas em forma de salários e mordomias. No dia seguinte as queridas vestais da APL vieram me dizer que o sítio eletrônico da casa estava grávido das mensagens de boas alvíssaras da seleta plêiade de artífices da prosa e do verso esculpidos nas páginas virtuais de whatsapps, uma coisa universal que não se escreve em português, eu não sei falar nem garatujar inglês. Aflito, paralisado, deixei passar os dias a roer unhas e, como quem treina dó-ré-mi-fá-sol-lá-si no teclado do piano, estou agradecendo e retribuindo de alma para alma as mensagens amigas de Fides, Cremísia, Vera, Elmar, Felipe, Chico, Cid, Reginaldo, Valdeci, Nildomar. Wilson Brandão, Oton, Luís Ayrton, Moisés, Zózimo, Dagoberto, Fonseca, Dilson, Plínio, Jônathas e Nelson e dos demais que, a mim adidos formamos uma silepse resistente e ainda não nos desasnamos convenientemente, na técnica e na deliberação, para os links da navegação on-line deste “admirável mundo novo”.

                                                     Cor cordis sursum,

______________

*Humberto Guimarães, médico, escritor, cronista, acadêmico da Academia Piauiense de Letras. Trata-se de uma crônica em seu aniversário natalício, oferecida aos acadêmicos, inclusive às funcionárias Cremísia e Veras

sábado, 8 de maio de 2021

 


                                                      A DOR E O TEMPO

 

     Francisco Miguel de Moura*

 

A dor menos dói

nos pontos roídos

do corpo (se flui)

entre sobras e luzes,

na sala esquecida

          penumbra.

 

Se é silêncio conforta,

o tempo já moído,

preparo sem metro

do que seria outro

vento sem vencida,

sem janela ou fresta

se ainda duvida.

 

Se tudo num cristal,

onde riscos são falhas,

de horas, anos doída

e doida descida.

Como se o imóvel

andasse na corrida

sem fundo das águas

no fundo... Asfixia...

O tempo não dói

de tão dolorido.

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*Francisco Miguel de Moura, este poeta desconhecido.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021


 A INTEIRA VOZ

 

                       Francisco Miguel de Moura*

 

 

Ser bela e jovem pela vida em fora,

desejo ardente e tanto acalentaste,

não percebendo as horas do contraste.

como o florir da pedra que não flora.

 

Mas sei quem foste, sei quem és agora.

Verás, com pouco, a foto que ofertaste

descorando qual flor que caiu d’haste:

És teu pai de ontem, tua mãe de outrora.

 

Contra as marcas das nossas aventuras

verás, no que inda sou, tuas loucuras,

teu futuro verás no que hei de ser.

 

Tudo por si se acaba, não tem jeito,

mas tua voz calada no meu peito

há de durar comigo até morrer.

 

_________

Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em

Teresina, Piauí, Brasil, onde há maravilhas que poucos

conhecem: ex: o Museu do Homem Americano.

 

A INTEIRA VOZ

 

                       Francisco Miguel de Moura*

 

 

Ser bela e jovem pela vida em fora,

desejo ardente e tanto acalentaste,

não percebendo as horas do contraste.

como o florir da pedra que não flora.

 

Mas sei quem foste, sei quem és agora.

Verás, com pouco, a foto que ofertaste

descorando qual flor que caiu d’haste:

És teu pai de ontem, tua mãe de outrora.

 

Contra as marcas das nossas aventuras

verás, no que inda sou, tuas loucuras,

teu futuro verás no que hei de ser.

 

Tudo por si se acaba, não tem jeito,

mas tua voz calada no meu peito

há de durar comigo até morrer.

 

_________

Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, mora em

Teresina, Piauí, Brasil, onde há maravilhas que poucos

conhecem: ex: o Museu do Homem Americano.

 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021


 

O ADEUS DE TERESA TERESA

     (Homenagem a Castro Alves)

                   

                    Francisco Miguel de Moura*

 

“A vez primeira que eu fitei Teresa”

Vi nos seus olhos uma sofredora,

Tinha uma perna curta e a outra tesa,

Porém, meu Deus, que voz encantadora!

 

Já da segunda vez que eu vi Teresa,

Ela se apresentou tão amorosa,

Em seus olhos – o brilho da beleza,

Em seu andar – que dança audaciosa!

 

Surpreso, na terceira vez apenas,

Amei Teresa e ergui minhas antenas,

Perguntando: - Enganaste a natureza?

 

Por ela apaixonei-me qual infante,

Com ciúmes do seu primeiro amante...

“E foi a última vez que vi Teresa,”

__________

Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador brasileiro, mora

em Teresina – Piauí – Brasil – Se ainda não conhece, venha

conhecer. Aqui é a terra em que o primeiro homem americano

viveu e deixou seus rastros, ou seja na Serra da Capivara.

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