quinta-feira, 6 de junho de 2019

A RUA, DE MANHÃ - Francisco Miguel de Moura


Francisco Miguel de Moura*

a rua parada espreguiça
na fofura da manhã

a moça varre a calçada...
um homem passa
e pisca
de lá de dentro da casa
(atravessa o jardim
flores resvalam)
um cheiro de café preto
vem apressar o passo dos
                    que passam
                           devagar

devagar a moça varre a calçada
e o tempo que não passa.
_____________
            *Francisco Miguel de Moura é poeta e prosador brasileiro,  que luta pelo reconhecimento, pois  já publicou 42 obras, incluindo os pequenos livros (de menos de 48 páginas), e aluguma das quais já em 2ª e 3ª edição; é membro da Academia Piauiense de Letras, de outras Academias, da União Brasileira de Escritores (UBE-SP) e da International Writers and Artists Association (IW), com sede nos Estados Unidos da América do Norte (USA).
            Este poema foi incluído numa antologia de poetas cearenses e piauienses, publicada em Fortaleza (CE)






quarta-feira, 3 de abril de 2019

POEMA SEM TÍTULO (homenagem aos 200 anos Chopin)

Carmen Sílvia Presotto*
(Porto Alegre - RS)

Há mortos que nunca morrem,
voz
imagem 
acordes

eles ressurgem feito marés
ou límpidos cristais a esculpir
as lágrimas que a curva do olho não apaga.

Há mortos que nunca se apagam,
nos revivem em fotos, momentos, palavras e músicas...

Há mortos vivos
transplantes d'alma
pontes do tempo
no viver, empréstimos de humanidade.

Há mortos que nunca morrem,
Chopin,
feito brazeiros, rios caudalosos tuas notas
e passos seguem a refletir em nós
vivas memórias...
_________________
* Carmen Sílvia Presotto, uma poeta enorme do Rio Grande do Sul, em 17 de março de 2011, ofereceu  a Francisco Miguel de Moura, um poema que ela construiu homenageando os 200 anos de Chopin.

quinta-feira, 14 de março de 2019

AS FILÓSOFAS DO INTERIOR -


Luiz Felipe
Pondé*

          Se sua mulher mandar você pular do telhado, reze pra ele não ser muito alto
          Conversando com umas amigas de uma importante cidade do interior paulista nos últimos dias, ouvi uma máxima que, segundo elas era repetida pelos pais. Essa máxima é a seguinte: “Se sua mulher pedir pra você pular do telhado, reze para que ele não seja alto”. O que quer dizer essa máxima filosófica?
          Primeiro, o óbvio, mas que, às vezes, parece não muito óbvio. A máxima exemplifica uma sabedoria muito antiga: nos casamentos que funcionam, as mulheres mandam no cotidiano, e esse cotidiano vai ao encontro do velho adagio “a mão que balança o berço é a mão que manda no mundo”. Ao contrário do que berra a turma contra o “patriarcalismo”, as mulheres bem casadas mandam.
          Casamentos que duram são matriarcais em grande medida porque as mulheres mandam em casa e no cotidiano. E, contra os que rezam na cartilha do “Segundo Sexo”, livro da filósofa Simone de Beauvoir (1908-1986), as mulheres são também o primeiro sexo.
          Quando os homens não aceitam mais serem mandados pelas mulheres, vão embora em busca de “novas senhoras”. O homem sempre quer uma mulher que mande nele, sem ela, ele se sente perdido, mal amado, mal cuidado e, portanto, ele devolve na mesma moeda.
          É claro que existem homens ruins que batem em mulheres e as violentam (e que devem ser punidos). Mas a maioria dos homens não faz isso, e essa imensa maioria cansou de se ver representada, da política à arte, das ciências sociais às escolas das crianças, como os vilões do mundo.
          Trabalhando de sol a sol, esses homens se encheram de ver suas vidas narradas de forma falsa e enviesada. E, para a tristeza de muitas odiadoras de homens, as mulheres que amam os homens bons e cuidadores resolveram se juntar no grito contra a mentira travestida de “verdade sociológica”.
          Críticas americanas do feminismo já haviam apontado o risco de que muitas das críticas da família tradicional são mulheres que nunca conseguiram achar um homem em que mandar no dia a dia.
          Essa incapacidade de encontrar um homem que as amassem o bastante para “obedecer” a elas teria levado essas mulheres sem homens para mandar no ódio ao casamento tradicional. Em suma, grande parte do feminismo raivoso (porque existe sim um feminismo consistente contra abusos, menores salários e espancamentos) deita raízes na incompetência de muitas mulheres em achar um homem em que elas mandem, com carinho, humor, doçura e perenidade.
          A ideia por detrás da máxima das minhas amigas filósofas do interior é que, se sua esposa mandar você pular do telhado, você deve apenas obedecer e rezar para que o telhado não seja tão alto, porque, se você não obedecê-la e não pular, a reação dela será muito pior do que a queda do telhado em si.

          Qual homem bem casado quer entrar em conflito com a mulher? Não apenas o resultado será que ela “fechará as pernas pra ele”, como o dia a dia virará um combate contínuo ao redor de coisas pequenas. E, por consequência, ele não conseguirá trabalhar em paz.
          A máxima soa ingênua, mas é a pura verdade, se não quisermos mentir pura e simplesmente. E a mentira, com o tempo, enche o saco de quem é capaz de enxergar a realidade para além do mimimi que caracteriza muito do debate ao redor do tema homem e mulher no mundo “especializado”, cheio de mulheres que não conseguem ter homens felizes em obedecê-las.
          O que uma conversa singela como essa nos ensina acerca do Brasil que emerge das eleições que estamos atravessando? O que é essa “guinada conservadora” que parece varrer o país?
          Muita gente no Brasil está cansada, por exemplo, de ser levada a pensar que debates ao redor do fenômeno “trans” sejam a pauta mais importante em termos de direitos humanos.
          Antes de tudo, a gente comum (que normalmente é casada e a mulher manda em casa, a fim de que a janta seja servida todos os dias) cansou de sentir que sua percepção de mundo é absurda, errada, reacionária, monstruosa, idiota ou cheia de ódio.
          Pelo contrário, muitas dessas pessoas querem apenas que seus filhos voltem vivos da escola e não que gastemos tempo e dinheiro com criminosos ou tristes vítimas de um passado ligado à ditadura. Tudo isso é muito distante delas.
          Os boletos que pagam todo dia parecem mais fundamentais do que muitas das discussões que os inteligentinhos levam a cabo na mídia, nas escolas, nas universidades ou na “arte”.
          As redes sociais “libertaram” a ira do Brasil profundo que paga boletos diariamente e que conhece homens que pulam felizes dos telhados há séculos.
_________________
*Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

CANÇÃO SEM PERNA NEM AR - Poema modernoso


 Francisco Miguel de Moura*


Que canção merece o mundo escuro?
Ninguém quer ouvir nada de ão...ão..
Nem saber do peito íntimo de alguém
senão para um sexo extra (ordinário).

E assim não há canção nem poema,
é uma extra-vasação do mesmo tema,
que não sei do seio de quem vem.

Palavras!... Soltar bolinhas de sabão,
ao vento, um vento tão opresso,
e reunir verso e reverso, sem uni-verso.
Oh! íntimo desprazer solto, aranhento!

No chão fundido, confundido, há mais,
muito menos pra ser visto, ouvido...
Por que as bandas tocam e dançam
e todos “dançam” nada atrás de nada?

Nenhuma canção vale a pena e o pinho,
durante a noite inteira esbandalhada.

_____________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta desencantado com as músicas de hoje, com os poemas e canções da “mundernidade”. Vejam também os blogues de responsabilidade deste autor, na internet: franciscomiguelmoura.blogspot.com, revistacirandinha.blogsport.com e abodegadocamelo.blospot.com.                              


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

NOVA FÁBULA - Crônica de Francisco Miguel de Moura


   Francisco Miguel de Moura*

                                                        
             Há alguns anos, um dirigente que se julgava um Semideus, pois representante da mais poderosa nação da Terra – se fosse ontem poderíamos dizer que se tratava de Roma    não contente como a maioria dos reis de apenas dirigir seu povo, quis ser um sábio também. E, quem sabe, Deus. E anotou em seus papéis e mandou escrever nos livros que se deu como autor e nas home pages que mandava seus auxiliares editar na INTERNET, e conscientemente dizia que descobrira a sede da inteligência humana; a sede das sensações (tato) ; a sede do gosto; a sede da visão; a sede da audição; a sede do olfato. Faltava quem lhe descobrisse o órgão dos sentimentos, o órgão da intuição, o órgão da vontade,  pois ele, que já era escritor, agora queria tornar-se poeta.
      Convocou os sábios, cientistas, professores, mestres, políticos, jornalistas, empresários, e nenhum soube dizer-lhe. Teve que, finalmente, apelar para os poetas. Constatou, desalentado, que não havia nenhum no seu reino. É que os antigos haviam morrido de fome.  Já os novos, seduzidos pelo dinheiro, pelas ações da bolsa, por tudo que o mundo capitalista aprova, haviam desistido de poetar, ou mudado de país. O resultado foi que aquele dirigente poderoso teve de importar um poeta de uma de suas semi-colônias.  E a primeira pergunta que dirigiu ao bardo do país subdesenvolvido foi a seguinte:
            - Que devo fazer para ser poeta?
          - Sentir e ter coragem de expressar os sentimentos, em sua própria língua, se não tiver capacidade de fundar outra; deixar que a imaginação trabalhe em lugar do que é simplesmente racional e prático; afundar-se no que sente, como os músicos, em seus instrumentos – disse o poeta.
        - Mas eu não sei onde fica, no corpo humano, a sede dos sentimentos, meu coração é um vácuo.
          - É no seu corpo inteiro, sua alma é sua vontade. A inspiração não é piração, mas conjuga todos os sentidos, mais a fé, a esperança e o amor (caridade), acompanhados de uma insatisfação, uma angústia de se saber finito, tão finito quanto o menor dos seres da terra, quanto o menor grão de areia, e dentro dessa finitude procurar a própria salvação e a salvação da humanidade    eis que lhe responde o poeta Tecermundo.
          - Acha, então, que posso ser poeta?
          - Não, pelo menos agora. Precisaria renascer e para renascer é preciso renunciar.  “De que vale teres o mundo inteiro, se tua alma anda perdida?”
          Claro que o Semideus desistiu de ser poeta, mas compensatoriamente tornou-se amante de todas as empregadinhas de sua casa, da rua e do palácio. Amante sem amar, amante sem dizer, amante de “mentirinha” como é todo amor no seu reino entre moedas e mercadorias.  Quanto ao poetinha, dizem que desapareceu, perdendo a oportunidade de tornar-se célebre por um dia,  aparecendo na televisão e na INTERNET, por  ter transformado o Semi em Deus. Renunciou aos bens e à importância momentânea para ficar com a sua consciência de homem e poeta. Sem as luzes do poder, poetando independente de quem estivesse de cima na bolsa e nos oligopólios. Na posse de todos os seus sentimentos e tentando distribuí-los entre seus irmãos. Ninguém sabe é se conseguiu ficar vivo.  
         Se esta fábula se parece com alguma situação dos nossos dias é pura coincidência. Ela foi pensada e sentida para comemorar o “Dia da Poesia”, 14 de Março (dia do nascimento de Castro Alves, no interior da Bahia, em 1847), e assim homenagear os poetas e a musa  Érato – entidade consagrada pelos gregos – que presidia à poesia lírica e à anacreôntica, aquela mais apaixonada, quando o poeta recebe as luzes do céu e o fogo do inferno, e com isto é capaz de derreter a terra para realizar sua vontade, sua alma. Érato é filha de Júpiter e de Mnemósine (a memória), tendo por irmã outras seis musas que patrocinam as  artes. Portanto, uma grande família.
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*Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador brasileiro, nasceu em Francisco Santos (PI), aos 16 de junho de 1933 (quando ainda era povoado Jenipapeiro-Picos). Já publicou mais de 40 livros e anda em busca de um editor para publicar os que lhe faltam: cerca de 10 (dez) entre poemas, contos, crônicas, crítica literária e romance. E-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com
                                                                      


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