sexta-feira, 30 de março de 2018

DISSECANDO O AMOR - FMM


Francisco Miguel de Moura*

Para o poeta, amor calado é drama
Que produz arte em musical poesia.
O amor existe, é luz, força, alegria,
Mas na tristeza é que ele mais tem fama.

Bem no princípio, o amor é uma chama,
É segredo no nome. Oh, quanto o zelo!
O amor é olho, é boca, ouvido e pelo,
E é pelos olhos que eterniza a flama.

Amor é tudo que, esperando, avança
Amor são dois, e é um - pra não perder-se:
Duas almas, dois corpos numa dança.

O amor se dá, que amor nunca reclama,
Não pensa em nada, amor é não saber-se...
Amor-amor é um bem que se derrama.

*********
*Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador brasileiro, filiado a várias instiuições culturais entre as quais cita: IWA (International Writers Association (USA), UBE (União Brasileira de Escritores), em São Paulo, e APL (Academia Piauiense de Letras), em Teresina, Piauí, onde reside atualmente.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

CONTRATENTOS

Francisco Miguel de Moura*


Seria uma manhã calma,
Feliz, absurdamente feliz,
Se não ouvisse palavras tropas,
Por trás das paredes
De sons matando gritos,
Uns de dentro, outros que se vão.

O vento uivava arrebentando os guizos.

Desconheço como o vento nasce e vive,
Quando entra, doido, pela janela,
Misturando papeis com versos e reversos,
Emoções e metáforas.
Metáforas que são minhas orações,
Para o gozo dos meus orgasmos
E inválidos espasmos literários.

E o vento rolando, arrebenta janelas.

Dai-me, paz, senhor do Infinito,
Abarca-me com a mão e o olhar,
Manda, pois, este vendaval parar
Enquanto cubro meu umbigo.



sábado, 20 de janeiro de 2018

AMOR E VIRTUDE  (romance)

francisco miguel de moura*


De repente aparece o sinal,
irisam-se os rostos,
lágrimas fluem rio-acima e
desejos reprimidos rio-abaixo.

Cai! É um corpo de mulher,
rola joelhos em terra,
reza uma prece, Deus não ouve.

Ele, o santo novo padre,
que ninguém sabia
no amor ferido.
Ela, a freirinha linda,
ninguém lhe adivinhando
a que vinha.

A vez primeira foi tão natural
na mata cheia de intempéries!
As almas se caindo em quatro
na cama que os corpos não esperam.

Depois, muitas vezes, muitas horas...
Merda para a vizinha e o vizinho!
O prazer reprimido gargalha
por distantes canais e vinhas.

Do medo – serem ouvidos
aos berros, matando a sede
sem mando, e lambuzados
da luz das estrelas,
na noite dos espinhos...
Agora, sim, se calam.

De "manhãzinha" correm
enquanto muitos dormem,
e o mundo os desconhece,
voltam da lua e das estrelas,
que não aparecerem.


Ela - toda sedução,
viço, beleza e glória.
– "O mundo, que importa"?
Ele – todo paixão, poder e amor.
– "E se tudo souberem amanhã"?


Ela - a mulher que borda a prece,
do estômago à roupa,
do beijo ao coito,
nos carinhos, na dor.

A noite vem salgada e vigorosa.
Desavergonhadamente, o escuro
entra no quarto
sem janelas, sem luas,
na nudez sem-olhos do “seu” povo.

Por vezes bate a dona solidão,
no descampado dos dias:
Da igreja ao púlpito, do sermão
às novenas ou
às silentes grades do convento.

Passam verões, chuvas e primaveras,
outonos e tempestades, nada temem.
Quando o mundo os descobre,
são mancebos-amancebados, amém.

“Cruzes, credo! Que juventude!
Só podem lhes fazer o mal.
- Ninguém cruze a soleira
daquela porta, senão
para o inferno vai!"

E ai! que um dia descobrem
dos dois – o antes e o depois:
Ele era padre noutra freguesia;
ela era freira noutro convento.
- “E para que fugira?”



Quebraram-se os contratos,
cada um para o outro lado,
o lado do amor sem convenção.
Anos, muitos anos...
A figueira secou.
O quintal caiu.
A casa foi engolida pela intendência.

Depois de muitas “lutas” e luas
o casal é re-conhecido pelo Papa
e as virtudes antigas todas se salvam.

Mas era tarde demais
para o descente amor.

As almas não se levantam pacientes,
mentem e gritam levemente
ou se vão como o suspiro de quem morre.


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A PESSOA, A COISA

Francisco Miguel de Moura
                   
A pessoa fala – a coisa se mostra
a pessoa cala – a coisa não gosta
a pessoa é livre – a coisa, composta.

Aposto na pessoa – a coisa eu quebro
emendo, remendo, re-quebro
(a poesia,  em si, chora)
mas a coisa não manda – explora
seu lugar é mostrar-se
o que foi e o que nunca será.

A pessoa manda, esquece, padece
a coisa não manda – endoidece.

A coisa, o que é? Não existe.

A pessoa foi, será e persiste.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Não precisa

Carlos Drummond de Andrade*



Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão
matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ANO NOVO
que mereça esse nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo. Eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o ANO NOVO
cochila e espera desde sempre.
_________________
*Poeta brasileiro já falecido, nasceu em Minas Gerais, é autor da mais consistente obra poética dos últimos, mestre que foi de todos nós. Na poesia brasileira podemos dizer que já existe um marco: antes e depois de Drummond.



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