quinta-feira, 13 de agosto de 2020


LENDA?

Ave, ou nave? Voava musical...        

Vestido em linho a desenhar-se toda,
delgado corpo bailando ao vento,
dentes brancos, lábios em carmim...
que frio, que medo em mim!

Oh signo sensual! exclamo,
por ti pecarei, só por querer-te,
e tentarei tantas vezes... tonto!

E que jamais meus olhos negros
venham  pousar sobre os teus, sim
ou não, nem  cruzar teus caminhos,
nunca de perto ou de longe.
 
Se teus punhais vi-o(s) tão lentos
ferirem-me os olhos e a razão,
e logo me fizeram de inútil
oh, não! nunca jamais, não!

Quero um sonho para sempre.
 
E então, por que ondas me vens 
o'  ânsia de noite inapagada?
agora? por onde? por nada?

A que levou meus olhos,       
a que me encheu os olhos
até secarem para sempre?
ai de ti, mundo claro-escuro! 

Lenda ou fada! de novo estou, 
agora e para sempre impuro!

domingo, 2 de agosto de 2020

DEPOIMENTO DE BENÉ, MEU EDITOR


                   

                                                     
                                             Francisco Miguel de Moura - autor do artigo

Há tempos tenho comigo um depoimento, por carta, devidamente autorizado a publicação. Não o divulguei imediatamente. Gosto das coisas pensadas e repensadas. Tenho paciência de cozinhar pedras. Hoje, pronto, resolvi. Aqui está. Quem o escreveu foi BENEDICTO LUZ E SILVA, editor, o grande idealista da Editora do Escritor -  São Paulo, que completou 3 décadas de existência .  Seu fundador e atual mentor, Luz e Silva, nasceu a 20 de setembro de l936, é poeta, contista, cronista, romancista, crítico literário, formado em Direito e membro da UBE – SP.  Recebeu o Prêmio “Alphonsus de Guimaraens”, da Academia Mineira de Letras, 1966, entre outros. Sua obra: “Um Corpo na Chuva”, 1972 (romance); “Sol nos Olhos”, 1975 (romance);  “A Morte do Cão” , 1976 (contos); “Fuga para o Fim”, 1977 (romance); “Vento Noturno”, 1978 (poesia); além de participações várias em livros coletivos. Mas, acima de tudo, Bené – como o chamam seus editados, entre os quais me incluo – possui um ideal nobre e procura concretizá-lo, aos trancos e barrancos, não desiste nunca. É a sua editora, a nossa editora, a Editora do Escritor. Não se trata de milagre, é trabalho e persistência, fé. Ele nos declara aquilo que nós já sabemos dele: - “Aprendi a não dizer senão o essencial. Quando não posso elogiar, prefiro hoje o silêncio. Claro que, como todo mundo, tenho minhas opiniões, mas será que tenho de externá-las, quando são desfavoráveis à alguém? Antes, em termos de literatura, eu achava que sim, porque amigo de Platão, porém mais da verdade, como no ditado antigo, - até que vi que isso era muito bonito na teoria, mas terrível na prática.” (Cta.de 5/101999).
Agora, o depoimento a meu respeito: - “Eu sabia que você era candidato a Deputado Estadual em seu Estado e torci para que saísse vitorioso, porque sei de seus méritos como homem e como intelectual. Lamento que não tenha obtido a votação a que fazia jus, menos por você do que pelo povo de sua terra, porque sei dos seus altos ideais e do bom senso para concretizá-los. Acredito que você já tenha dado a volta por cima e sacudido a poeira. De propósito não lhe escrevi de imediato, porque imaginei como devia estar o seu estado de espírito. Mas nada como o tempo para repor tudo em seus lugares. Esteja certo de que ganhou você em não ser eleito. Não é o desejo de consolá-lo que me leva a dizer isso. Infelizmente, a política, como é praticada entre nós, conduz a becos sem saída. Se há benessses, sinecuras, privilégios, por outro lado, há também cobranças, subserviências, corporativismo. Você, com seu alto espírito cívico, com sua moralidade, na certa sofreria muito em meio a tantas transações de interesses conflitantes. Bom que você se sinta agora livre dos compromissos políticos. Tenho certeza que cumprirá seu destino com galhardia, continuando a escrever e publicar.
            Recebi a biografia de Rejane Machado. Grato. A coletânea “Mural de Azulejos” começa a ser composta agora em janeiro, pois já temos o número necessário de participantes para um bom volume. É fundamental plantar e distribuir qualidade. Uílcon Pereira sempre me dizia que era preciso publicar mais artigos de crítica, porque eram eles que sedimentavam o prestígio de um autor.  Aliás, nisso ele repetia Ezra Pound que sempre pregou a necessidade de se escrever sobre os escritores enquanto estavam vivos. Por mim, sempre que posso, cumpro essa missão.
Sou grato a você por divulgar  novamente o que escrevi sobre sua obra. Se bem me lembro, também escrevi sobre “Os Estigmas”. Uma vez me pediram um levantamento sobre os artigos que escrevi e cheguei a mais de 200, entre assinados e não assinados. É aquilo de a gente ir escrevendo como respira, quando vê, tem um rio de palavras atrás.  Que tudo tenha servido para alguma coisa.” (Cta.de Benedicto Luz e Silva, de 8/12/1998 ).
Serviu, sim, Bené. “Tudo vale a pena, se alma não é pequena”, já o disse Fernando Pessoa,  o grande poeta do século. E sua alma é grande, Bené: sua alma e sua obra. Aí está para quem quiser ver. Tanto a obra material, quanto a espiritual, seus escritos.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

QUADRINHAS


Francisco Miguel de Moura*


Num corpo que me galopa
por roças onde não mora,
vejo um cavalo que corre
do sol posto até a aurora.

Por que estou tão descontente
Quando o pensamento aflora,
Pra dizer tudo o que sinto,
Do ontem, chegando agora?

Não pensar é desfazer-se
Sem fazer o “mim” que chora,
Sem uma gota de riso,
Como um louco toda hora.

Se quis agora ser duro,
Duro que não fui outrora...
Fiquei tremendo, isto pode?
Que resta de mim, agora?

Vejo as folhas baloiçando
Ao vento que vem da aurora.
Que neutro me trouxe o dia,
Quando a noite inda me chora!

Como um cavalo que rincha,
Não sei se rindo, ou se chora,
Desfeito em sustos e nãos...
Onde esse cavalo mora?

Não sei, nem posso saber,
Faz tempo que fui lá fora,
Meu tempo vem da janela
que se fecha... E vai embora!
_____________
*Francisco Miguel de Moura, poeta e trovador. Sabiam que já recebi prêmio até de trova? Foi no Sesquicentenário da Independência do Brasil, num concurso em São Paulo.


terça-feira, 14 de julho de 2020


CARRO DE BOI
          “Carro de boi que não geme não é bom,
              carro de boi bom é o gemedor”.  
                                   (Do cancioneiro popular)

Eu bem me lembro... Era o carreiro indo
sobre o carro de boi, a carga imensa,
pela estrada do engenho perseguindo,
chicoteando os bois... E a dor intensa...     

De “Maiado” e  Gamela... Era o destino.
Enquanto os bois gemiam de cansados,
ele, o carreiro, assobiava um hino
para que os bois sentissem seus agrados.

Mas só sentiam dor, os bois amados,
na estrada da fazenda, chicoteados,
sem ninguém que tivesse compaixão,

Assim, eles ouviam o triste canto
do carro que puxavam por enquanto:
- O mais triste gemido do sertão.
                     ***
Francisco Miguel de Moura (Chico Miguel)
               Teresina, PI, em 14.ju.2020.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

QUADRINHAS




          Francisco Miguel de Moura*

Por que estou tão descontente
Quando o pensamento aflora,
Pra dizer tudo o que sinto,
Do ontem chegando agora?

Não pensar é desfazer,
Sem fazer o “mim” que chora,
Sem uma gota de riso,
Como um louco a toda hora.

Deu vontade de ser duro,
Duro que não fui, demora...
Fiquei tremendo, isto pode?
Que resta de mim, agora?

Vejo as folhas baloiçando
Ao vento que vem da aurora.
Que neutro me trouxe o dia,
Quando a noite inda me chora!

Como um cavalo que rincha,
Não sei se rindo, ou se chora,
Desfeito em sustos e nãos...
Onde esse cavalo mora?

Não sei, nem posso saber,
Faz tempo que fui lá fora,
Meu tempo vem da janela
que se fecha... E vai embora!
_____________
*Francisco Miguel de Moura, poeta e trovador. Sabiam que já recebi prêmio até de trova? Foi no Sesquicentenário da Independência do Brasil, num concurso em São Paulo.

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