segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A QUEDA DAS FOLHAS



Francisco Miguel de Moura
          Poeta brasileiro 




As folhas caem, ai! Verão.

Ninguém lhes ouve a queda,
A dor de coisas semimortas,
Quando o vento carregador

Vem e as leva pela várzea
E ali se enterram no chão.


Algumas doidas se soltam 
Salvam-se, saem dançando

Com o vento, sobem o outeiro

Onde um poeta há tempo dorme.
O dorminhoco, aos acordes
Dos sons, saracoteios surdos
Das infelizes contra a porta,
Ainda ressona.

...

Será tarde, bem tarde
Para um carinho… Oh! Não!

Eis que o poeta transtornado sonha:
E quebra a eternidade do instante
Com um poema na mão.

domingo, 11 de dezembro de 2016

PROSOPAGNOSIA: ENTREVISTA

THAIS DE LUNA a FRANCISCO MIGUEL DE MOURA,
para o Correio Braziliense


28 de setembro de 2009

1- Como e quando você descobriu que tinha prosopagnosia?
R - O nome prosopagnosia é recente, embora já existisse a deficiência da memória localizada que dificulta a retenção de rostos na memória do paciente. Ninguém por aqui sabia nada – até que as revistas VEJA e ÉPOCA, antes o Jornal do Brasil, começaram a publicar matérias sobre o assunto. Foi aí que comecei a interessar-me pelo assunto. Minha mãe (já falecida) me dizia que não decorava o rosto das pessoas, tinha dificuldade de reconhecê-las. Eu, me observando, vi que acontecia o mesmo comigo.

2- Você já passou por alguma situação constrangedora por causa desse distúrbio? Pode contar alguma(s) delas?

R - Constrangedora, não. Algumas vezes, pessoas que foram de minhas relações e, durante l, 2, 3 ou mais, não tivemos nenhum encontro, me dizem: Você é orgulhoso, passa por mim e não fala. Que é que houve? Esta é uma maneira de não ser pego de surpresa, indagado: Não está me reconhecendo? Quem sou eu? E a gente ficar com cara de bobo diante delas. Então é melhor bancar o importante ou o distraído. Evitar. Recentemente eu estava vendo um programa de tevê, na casa de um amigo, e disse mostrando um artista: Ele é filho de meu primo, é fulano de tal, não é? E meu amigo disse: Não este aí é Fulano de Tal. Como é que pode ser seu primo, ou filho de seu primo?

3- Mais alguém da sua família tem isso?

R - Sim, poucas, além de minha mãe. Mas me reservo o direito de não dizer quem, entende?
4- Você chegou a ir a um médico para ser diagnosticado com o distúrbio ou descobriu por conta própria o que tinha? R - Não, mesmo porque não existe nenhum especialista no assunto. Nem remédio. A medo que a gente tem é de a prosopagnosia ter alguma relação com o Mal de Alzheim, temida por todos.

5- Quais mecanismos você desenvolveu para reconhecer mais facilmente as pessoas?
R – Ouvi-las, em mim a voz é essencial. Também a roupa, o cabelo, os olhos, o nariz, a boca, a cor, etc. O que o prosopagnósico não consegue é guarda o conjunto, o que chamamos de feições. Mas as partes, sim.

6- Você consegue reconhecer uma pessoa imediatamente quando a encontra ou demora algum tempo (nem que sejam alguns segundos)?
R – Demoro, sim. A “memória de conjunto”, se assim podemos chamar, no prosopagnósico, é muito fraca e depois de algum tempo apaga-se. Esse conjunto também se estende a objetos: marcas de carro, por exemplo, só sei quando olho o nome da empresa industrial: Ford, Chevrolet. Mesmo o meu próprio, desconheço, a não ser pela cor, pela placa, por outro sinal particular.

7- O que você enxerga quando olha para um rosto?
R - Penso que vejo as partes de cada vez, sem o entrelaçamento.

8- No seu caso, você tem prosopagnosia desde sempre ou algo desenvolveu o distúrbio (como uma pancada na cabeça, um derrame etc.)?
R Acredito que desde sempre. Não lembro muito de quando criança. Mas posso lembrar das pessoas mais queridas que morreram e não há meio de visualizar seus rostos. Com o avançar da idade, vinha ficando pior, mas depois tomei tento e passei a usar a memória neste sentido, por exemplo, vendo novelas, filmes, e tento gravar pelo menos enquanto passa o capítulo ou aquele filme. Depois, tento, vendo o artista – ou a artista – noutro programa, tento decifrar quem é, lembrar-me do nome e o que é que ela faz no primeiro programa, etc.


9- Você já sofreu preconceito ou foi considerado antipático por causa da prosopagnosia?
R – “Orgulhoso, não fala mais com ninguém!”, dizem – talvez pelo fato de ser escritor, localmente (Municípios e Estado do Piauí) já famoso e muita gente me conhecer, inclusive no jornal e da tevê.

10- A prosopagnosia te impede ou dificulta fazer algo, como assistir a filmes?
R - Às vezes sim, quando se trata de um filme que versa assunto da minha antipatia: guerra, droga, violência, etc. Gosto de filmes de amor, romances, dramas, comédias, etc. Divirto-me muito, embora nem sempre acerte o nome do personagem que está atuando.

11- Você também tem dificuldades em reconhecer certos objetos ou só rostos mesmo? Se tiver, quais seriam?
R – Já falei acima em marcas de carro, mas tenho realmente dificuldade de reconhecer formas com que não esteja bem familiarizado. Esqueço muito das corres. Já errei no nome da cor da frente de minha casa.
Uma observação a mais: Não sei se acontece com outros prosopagnósicos, mas comigo sim: Se fecho os olhos, não consigo visualizar rosto de ninguém. Já experimentei, tentando lembrar. Lembro do corpo, do caminhado, do chapéu, do cabelo, até do riso e da voz principalmente. Mas..
Tenho dito sempre, entre outras coisas, que na minha vida de escritor, somente nas sessões de autógrafos, me sentia um pouco sem jeito. Mas depois passei a perguntar descaradamente: - Qual é seu nome completo? E completo com uma desculpa: - Na hora que estou autografando me dá um branco... Nem do nome de meu pai eu me lembraria, se vivo fosse e viesse a essa fila.
12 - Preciso ainda saber como o senhor quer que seu nome apareça no jornal, além de saber qual a sua idade e profissão.

R - Meu nome, quer civil, quer literário é FRANCISCO MIGUEL DE MOURA. Familiarmente sou tratado por Chico Miguel. Já lancei 30 livros, entre poesia, crítica, romance, conto e crônicas. Tenho 76 anos – nascido que fui a 16 de junho de 1933. Meu “livro lançado recentemente, em 2008, se chama ‘FORTUNA CRÍTICA DE FRANCISCO MIGUEL DE MOURA”, contendo uma biografia escrita por José Maria de Aguiar Ramos. E de minha autoria, apenas: - uma longa entrevista e um depoimento mais ou menos longo, poemas e cartas. Dos outros: crítica de diversos escritores de todo o Brasil a respeito de minha obra. O primeiro livro lançado se chama “AREIAS”, poemas, 1966, numa Editora de Timon – MA. Tenho obras lançadas no Rio e São Paulo, que participaram de bienais. Fui premiado em todos os gêneros que pratico. Sou membro da Academia Piauiense de Letras e da IWA – International Writers and Artists Association, Toledo, OH, Estados Unidos.


Atenciosamente,
Thais de Luna.




domingo, 25 de setembro de 2016

A PRIMEIRA (Como se fosse a segunda)






Francisco Miguel de Moura*


Não sei se ela me veio por primeiro
Afeto de menina que se quer.
Está tão longe o tempo e seu mister...
O pensamento é um grande viajeiro.

Sei que era linda e tinha gosto e cheiro
Diferentes das outras. Nem sequer
Nos beijamos. Porém de longe o ser
Encontra o outro ser quando é inteiro

Em juventude, em luz, em força e mais,
Naquela idade em que se não tem paz
E quando a tem não tem impunemente.

Se foi amor,  não sei. Sexo não foi.
Foi diferente. Ai como a vida dói
Por amor quando vem tão inocente.

______________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro. E-mail:franciscomigueldemoura@gmail.com

sábado, 3 de setembro de 2016

OLHO OS JORNAIS E ESTREMEÇO

José Maria Vasconcelos
Cronista

         Acabara de ministrar a última aula de um curso de Redação, solicitado por escola privada. Uma estudante acompanhou-me até o portão: “Professor, você nos incentivou a ler e acompanhar os acontecimentos atuais para uma boa redação. Devo lhe dizer que só rola desgraça... Olho os jornais e estremeço:  expõem, exaustivamente, a degradação da família, consumo e tráfico de drogas, estupros de crianças e adolescentes e morte e desgraças!”
         Uma frase da estudante bateu-me forte: “Olho os jornais e estremeço”. Adolescente de 15 anos pronunciar uma frase tão condensada de sentimento humano, exaustivamente cantada há 30 anos, 1986, portanto o dobro de sua idade?! “Querida, onde você encontrou essa frase?” Referia-se a uma linda canção de Roberto Carlos, APOCALIPSE”, advertindo o mundo para o caos social. A estudante ouvira a música em encontro de jovens de sua igreja: “Perto do fim do mundo / Como negar o fato / Como pedir socorro / Como saber exato / O pouco tempo / Que resta / Só vai sobrar / O que presta. /... OLHO O JORNAL E ESTREMEÇO / Todo final tem seu começo / Taças amargas derramadas / Profecias confirmadas alertam / Que é o fim da estrada / Tempo de dor / Falta de amor /... / Drogas num mar sem porto / A violência, o crime / Na aprovação do aborto / Por tudo isso / Se a terra treme / Só quem não deve / Não teme / Pra quem seguir Seus passos / E o Seu amor profundo, / Ele virá trazendo / A luz de um novo mundo”.
         A estudante tinha suas razões para censurar a temática abusiva da imprensa que transforma o noticiário em liturgia da tragédia humana. Só caos moral, só tragédia e busca de audiência. Um tema oportuno para redação nos concursos.
         Meios de comunicação, especialmente a televisão, costumam festejar tragédias, em vez de denunciá-las. Oferecem pouquíssimo espaço à divulgação de valores morais; exemplos de famílias construídas em princípios sadios; jovens libertos dos vícios; adolescências castas e prudentes nas relações amorosas; recuperação de bandidos; amantes da biodiversidade; ações comunitárias, sem espera dos governantes.
         Os elétrons saltam de uma órbita para outra do átomo e formam partículas, que se transformam em blocos, planetas e estrelas. Um mundo maravilhosamente harmonizado pela física quântica. A unidade na pluralidade. Florestas, animais, rios, oceanos, desertos e prados convivem sob a batuta do equilíbrio ecológico. Todavia, a razão humana tenta harmonizar a vida nos seus paradigmas do quanto mais escandaloso mais divertido, assistido e lucrativo.
          A imprensa evita abordar suicídios para não induzir pessoas a irracional ato. Por que não agir com outros níveis de notícias, como estupros coletivos, que, em vez da denúncia e informação, induzem marginais a praticá-los? Uma adolescente, ainda lhe ardendo a seiva dos puros sonhos, pode se educar nos paradigmas da TV e meios de comunicação? Ou irão deixá-la desencantada, estremecida com o pão ordinário da informação? 30 anos se foram, e só pioraram as coisas. A geração atual precisa ouvir a canção e refleti-la. Por que o apocalipse depende de nós, e não do castigo de Deus.


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

CADASTRE IMAGINAIRE - BALANÇO IMAGINÁRIO

Jean-Paul Mestas 
(Autor)


Ici resteront les murmures
avec un peu de terre
empruntée aux vieux temps;

à côte seront les silences
entourés de souffles discrets
comme celui des femmes
aux avant-postes de l’amour;

ailleurs, beaucoup plus loin,
revivront les statues
que dormaient dans notre mémoire.

 

BALANÇO IMAGINÁRIO

Francisco Miguel de Moura
 (Tradutor)
                                        

Aqui restaram os murmúrios
com um pouco de terra
emprestada dos velhos tempos;

ao lado, estará o silêncio
rodeado de sopros discretos
como os daquelas mulheres
à primeira mostra do amor:

além, muito mais longe,
reviverão as estátuas
que dormiram na nossa memória.



*Jean-Paul Mestas, poeta francês. *Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro. São um só poema e sua tradução como interpretará o leitor
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