domingo, 25 de setembro de 2016

A PRIMEIRA (Como se fosse a segunda)






Francisco Miguel de Moura*


Não sei se ela me veio por primeiro
Afeto de menina que se quer.
Está tão longe o tempo e seu mister...
O pensamento é um grande viajeiro.

Sei que era linda e tinha gosto e cheiro
Diferentes das outras. Nem sequer
Nos beijamos. Porém de longe o ser
Encontra o outro ser quando é inteiro

Em juventude, em luz, em força e mais,
Naquela idade em que se não tem paz
E quando a tem não tem impunemente.

Se foi amor,  não sei. Sexo não foi.
Foi diferente. Ai como a vida dói
Por amor quando vem tão inocente.

______________________
*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro. E-mail:franciscomigueldemoura@gmail.com

sábado, 3 de setembro de 2016

OLHO OS JORNAIS E ESTREMEÇO

José Maria Vasconcelos
Cronista

         Acabara de ministrar a última aula de um curso de Redação, solicitado por escola privada. Uma estudante acompanhou-me até o portão: “Professor, você nos incentivou a ler e acompanhar os acontecimentos atuais para uma boa redação. Devo lhe dizer que só rola desgraça... Olho os jornais e estremeço:  expõem, exaustivamente, a degradação da família, consumo e tráfico de drogas, estupros de crianças e adolescentes e morte e desgraças!”
         Uma frase da estudante bateu-me forte: “Olho os jornais e estremeço”. Adolescente de 15 anos pronunciar uma frase tão condensada de sentimento humano, exaustivamente cantada há 30 anos, 1986, portanto o dobro de sua idade?! “Querida, onde você encontrou essa frase?” Referia-se a uma linda canção de Roberto Carlos, APOCALIPSE”, advertindo o mundo para o caos social. A estudante ouvira a música em encontro de jovens de sua igreja: “Perto do fim do mundo / Como negar o fato / Como pedir socorro / Como saber exato / O pouco tempo / Que resta / Só vai sobrar / O que presta. /... OLHO O JORNAL E ESTREMEÇO / Todo final tem seu começo / Taças amargas derramadas / Profecias confirmadas alertam / Que é o fim da estrada / Tempo de dor / Falta de amor /... / Drogas num mar sem porto / A violência, o crime / Na aprovação do aborto / Por tudo isso / Se a terra treme / Só quem não deve / Não teme / Pra quem seguir Seus passos / E o Seu amor profundo, / Ele virá trazendo / A luz de um novo mundo”.
         A estudante tinha suas razões para censurar a temática abusiva da imprensa que transforma o noticiário em liturgia da tragédia humana. Só caos moral, só tragédia e busca de audiência. Um tema oportuno para redação nos concursos.
         Meios de comunicação, especialmente a televisão, costumam festejar tragédias, em vez de denunciá-las. Oferecem pouquíssimo espaço à divulgação de valores morais; exemplos de famílias construídas em princípios sadios; jovens libertos dos vícios; adolescências castas e prudentes nas relações amorosas; recuperação de bandidos; amantes da biodiversidade; ações comunitárias, sem espera dos governantes.
         Os elétrons saltam de uma órbita para outra do átomo e formam partículas, que se transformam em blocos, planetas e estrelas. Um mundo maravilhosamente harmonizado pela física quântica. A unidade na pluralidade. Florestas, animais, rios, oceanos, desertos e prados convivem sob a batuta do equilíbrio ecológico. Todavia, a razão humana tenta harmonizar a vida nos seus paradigmas do quanto mais escandaloso mais divertido, assistido e lucrativo.
          A imprensa evita abordar suicídios para não induzir pessoas a irracional ato. Por que não agir com outros níveis de notícias, como estupros coletivos, que, em vez da denúncia e informação, induzem marginais a praticá-los? Uma adolescente, ainda lhe ardendo a seiva dos puros sonhos, pode se educar nos paradigmas da TV e meios de comunicação? Ou irão deixá-la desencantada, estremecida com o pão ordinário da informação? 30 anos se foram, e só pioraram as coisas. A geração atual precisa ouvir a canção e refleti-la. Por que o apocalipse depende de nós, e não do castigo de Deus.


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

CADASTRE IMAGINAIRE - BALANÇO IMAGINÁRIO

Jean-Paul Mestas 
(Autor)


Ici resteront les murmures
avec un peu de terre
empruntée aux vieux temps;

à côte seront les silences
entourés de souffles discrets
comme celui des femmes
aux avant-postes de l’amour;

ailleurs, beaucoup plus loin,
revivront les statues
que dormaient dans notre mémoire.

 

BALANÇO IMAGINÁRIO

Francisco Miguel de Moura
 (Tradutor)
                                        

Aqui restaram os murmúrios
com um pouco de terra
emprestada dos velhos tempos;

ao lado, estará o silêncio
rodeado de sopros discretos
como os daquelas mulheres
à primeira mostra do amor:

além, muito mais longe,
reviverão as estátuas
que dormiram na nossa memória.



*Jean-Paul Mestas, poeta francês. *Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro. São um só poema e sua tradução como interpretará o leitor

sábado, 30 de julho de 2016

12 PENSAMENTOS – ASCENDINO LEITE

 Ascendino Leite


1 - Meu coração não tem futuro.

2 – Quão difícil é lutar contra os simples dados da emoção.

3 – A verdade mais genuína é a que conduz à mais recôndita intimidade.

4 – Só o livro, na sua pequenês, é capaz de abranger o infinito.

5 – Jamais sentir-me-ei feliz se, em o sendo, possa tornar os outros invejosos,

6 – O tato é mais poderoso que o olhar.

7 – O despertar é o único momento normal do dia que começa.

8 – Não me importunem. Ou não me metam em alegrias excessivas.

9 – Eu sou daqueles que já nasceram suicidas.

10 – Felizes aqueles que atravessam a vida sem sequer saber o que é um julgamento.

11 – O pior tipo de fracasso: o homem que destrói a própria relação consigo mesmo.

12 -  Vivi verticalmente, sempre, e pouco dormi. Para ter a sensação de viver mais.


_________________
Escritor paraibano, jornalista, memorialista, poeta, nasceu na Paraíba e faleceu em João Pessoa, já alguns anos. Os pensamentos acima foram colhidos em seu livro "O Jogo das ilusões".

domingo, 17 de julho de 2016

IRRESISTÍVEL PUDOR FEMININO

José Maria Vasconcelos
Professor e cronista

Em meio a enigmáticos traçados de pichações, em muros e prédios, encontrei, enfim, uma frase legível e que traduzia a sexualidade contemporânea: “GAROTA QUE NÃO TRANSA É PAIA”.
Que PAIA? Nosso sertanejo, preguiçosamente, engole fonemas do termo PALHA por PAIA. O caipira paulista adota PAIA para determinar coisa imprestável, sem valor, transitório como PALHA. Tanto faz, lá e cá. PAIA entrou no vocabulário dos devaneios baratos. “Que tudo fácil, valor nunca traz”(R. Carlos)
Que me perdoem as mulheres, que andam mais preocupadas em conquistar direitos de proteção à sua sexualidade do que cobrir a sua vergonha. Vistam-se,  cubram-se de pudor e decência. O pudor feminino inflama a libido masculina. Não me me refiro a pudor de burca e saias longas. Não, mas de preservar prudência na relação com os homens.
Pudor é discrição no vestir-se, prudência no falar, no topar a cantada, ficar por ficar com a primeira paquera. Mulher pudorosa envergonha-se de mostrar o corpo, exibindo-se para despertar erotismo. Que, na primeira parada, entrega-se a calientes amassos, e chamam o “ficar” de amor à primeira vista.
Quanto mais fáceis as mulheres avançam, mais os homens partem para o “ataque”. Trata-se do natural instinto dos machos. Mulheres atacam com suas bermudas curtíssimas, seios quase à vista, cortes para a imaginação masculina delirar, tecidos transparentes, nádegas desnudadas, fios dentais, anais. Sem falar nos rebolados eletrizantes dos ritmos frenéticos. Elas querem respeito e direitos, mas preservando a astúcia das serpentes.
Paia sou eu, quadrado, antiquado, coroa, que vivi uma época em que prostitutas da Paissandu, Marocas, Casa Amarela e Brasília eram mais pudicas que as avançadinhas atuais. Uma época em que o lance de uma calcinha escondidinha ou dançar colado me deixava úmido, em pleno salão do Clube dos Diários ou do Jóquei.
Depois de uma palestra, o estudante de 16 anos procurou-me: “Professor, não sei o que está acontecendo comigo: não sinto mais tesão pela minha namorada...” Fui direto: “Ela permite a você todo tipo de amasso?” E, direto, completou: “Professor, já conheço norte, sul e centro... sem mais segredo a descobrir”. Diagnóstico: “Seu problema, amigo, é barriga cheia: você comeu demais. Sua namorada empanzinou você. Ela não se submeteu a uma dieta nem estimulou você a fazê-la”.
O corpo é expressão da alma. A educação do corpo causa manifestação adequada do espiritual. O pudor, para homens e mulheres, reflete o equilíbrio entre corpo e espírito. A devassidão sexual, além da violência, em geral, dominaram civilizações, quando se permitiam exageros de condutas liberais. Por isso, foram arrasadas.
A roupa é uma linguagem, assim como os estilos. Traduzem características de época. Estilistas criam moda para seduzir, porque a época de exacerbado erotismo domina os comportamentos.  O inventor da minissaia admitia que seu alvo “era seduzir os homens, ser subversiva a moda”.
Ah! Quão difícil conscientizar os jovens, mocinhas principalmente! Pais e educadores é que são os verdadeiros PAIAS. Eu, deles.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...