terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O MENINO QUASE PERDIDO

Bernadete Maria de Andrade Ferraz*
                      “Eu sustento com palavras o silêncio 
                             do meu abandono.”
                                                        Manoel de Barros


       Título aparentemente jocoso, paradoxalmente preocupante, mas pertinente, pois considerando as mesmas agruras com as quais Xico conviveu, outros meninos quase escaparam.

              O menino quase perdido é um gigante, desde menino, pela própria natureza. “Ainda sem noção do tempo de vida - três ou quatro anos”, experimentou o pesadelo do que viria a ser o sentir-se enterrado vivo, embora nem soubesse ainda o que era morrer. Tinha um buraco fundo em frente à casa do avô...   Aquele buraco ainda existe na lembrança do menino de hoje - um marco povoado de questionamentos em suspenso. "Se era brincadeira, nunca vi coisa tão besta", pensou sobre a atitude covarde dos tios rapazes, de colocarem-no naquele isolamento lúgubre por um tempo indefinido e sem comentários. "Por que ninguém lhe falou dele, durante os anos de sua vida de criança? O menino de hoje ainda procura descobrir.” Por que o chamavam de Xico, Xiquinho? Qual era sua ascendência? Onde morava? E seus pertences, cadê?  A mãe falava nos parentes, o pai, não. Aliás, “nunca foi íntimo dos filhos”. A família de mestre Miguel tinha um jeito esquisito de querer bem.

             Apesar do buraco, fato esdrúxulo, Xico exerceu uma convivência muito próxima com as vazantes, ribanceiras de riacho, o verde das margens de capim, os canteiros de batata, alho e cebola, currais de gado e de criação, veredas e montanhas, moagens de cana, caieiras. Nominava árvores e arbustos. Experimentou os efeitos do frio da madrugada, do sol que lhe fustigava os olhos e do verão quente, sem chuva. Participava das viagens a pés, das novenas, dos passeios nas casas dos avós e dos tios. O menino Xico mantinha uma bússola na ideia: conhecia pelos nomes, pelos rumos, detalhes adjacentes e até pelos proprietários, todas as localidades onde sua família morou e onde o mestre Miguel exerceu seu ofício de professor. Aquele foi o seu farto universo infantil. Toda aquela vizinhança com sua natureza pura, abençoada e abençoante. Um recheio de emoções boas e visões alegres para o seu coração reflexivo que sustentava a solidão íntima e circundante, uma introdução ao clima propício ao pensar.

             Como que uma luz e uma proteção preestabelecidas para as primeiras passadas pensantes de Xico, ele resistia ao torvelinho de curiosidade que se assanhava, prematuramente, em sua cabeça à cata de conhecimentos minuciosos sobre sua pessoa. Seus desejos de respostas prontas e imediatas, o querer saber tudo sobre a vida familiar, atual e pregressa, geravam figuras e emoções que acompanhavam seus pensamentos e sonhos. Sem respostas para as suas interrogações, Xico se achava “sem lenço e sem documento...” Aquele menino quase perdido tinha um compromisso com os achados de sua vida.

             Tornou-se autodidata naquela infância sem jardim; naquele aprendizado doméstico, experiencial. Custava-lhe o remoer de uma infância demorada, entregue a questionamentos infindáveis e não distribuídos por falta de interlocução. “O crescer é uma eternidade, não via o tempo de ficar grande. Não tinha comparações a fazer, a vida estava toda por vir.” De repente, o seu pensar fazia um giro às avessas: “Não se deve reclamar da infância, é sempre gostoso recordar, mesmo de lembranças ruins. O tempo se encarrega de adoçá-las.” Por consequência desenvolvia, intuitivamente, o hábito de mentalizar situações. “O menino reinventava o tempo”, os espaços, os afazeres e até as conversas. Curtia o movimento do gado, espiava o roçado, visitava Mãe Ana – querida bisavó materna, pedia sua bênção, dialogava com ela, tudo na imaginação. “Falar a partir de ninguém faz comunhão com o começo do verbo”, sustenta outro menino do mato chamado Manoel de Barros. Xico era afeito aos momentos de quietude, seu laboratório de lucubrações. Seus devaneios montavam um quadro vivo onde ele via, ouvia, andava e conversava sentado num peitoril, quieto e sozinho... Havia um punhado de autossuficiência na energia vital e mental de Xico que o tornava diferente, apesar de seu encolhimento no tocante a exibir-se. Quase terapeuta de si mesmo.

             O menino quase perdido gozou do privilégio do “quase”, do “triz”, pois a parte de sua história que conviveu com o quase, tinha uma razão de ser: sua lapidação precoce e espontânea. Ele captava, de acordo com seus grãos de idade, as belezas e as riquezas dos pedaços de chão por onde “trafegueou”. As imagens eram gravadas e eternizadas pela retina de seu maravilhamento. “Xico não sabe só por ouvir de terceiros”, mas pelas conjecturas costuradas no breu do isolamento noturno, aos solavancos dos soluços do medo, após ouvir a zoadinha da chave saindo da fechadura do quarto. - “Obedeça a seu pai, fique quietinho que daqui a pouco o sono chega.” Mais uma vez abria o berreiro até a exaustão e o que chegava era o silêncio da solidão que auxilia o autoencontro.  Após essa travessia baixava o constante sentimento de entronização pelos pais e de anjo guardião dos irmãos, menores ainda. Era o seu núcleo principal e ele o desejava imaculado. “As crianças começam por amar os pais; à medida que crescem, julgam os pais: às vezes, os perdoam”, pensou Oscar Wilde.

                Na rotina severa da educação doméstica, quando era anunciada a hora de dormir, o desarrimo do carinho automatizava as passadas lentas e pesadas rumo ao escuro, à redinha mijada, ao medo e ao sono, quando quisesse chegar... O quadro geral somatizava toda aquela sequência de emoções mal assimiladas pelo menino e tinha lá suas consequências: no caso, comer a casa - viçar barro molhado. Xico reconheceu aquele inferno, desgostou-se, defendeu-se e se viu livre.  Eita menino bravo!

                Por desejos alheios aos seus (menino não tem querer), mas oriundos de promotores de peso, aquele menino, aos seis anos de idade foi quase adotado pelo senhor Moura Fé. Quando crescesse, o mesmo senhor já o via quase padre. Já para seu avô, Senhor do Diogo, ele estava predestinado a quase caçador de onça, para imitá-lo quando crescesse. Naquele momento, o menino pensou: “Se seu avô soubesse que o neto é um medroso, um poltrão, que nunca caçou onça, que vive somente caçando letras, palavras, discurso!”.

               Será que havia no próprio menino a sensação incônscia de quase perdido pelo incidente do buraco? Pelo rosário de lágrimas? Pela ausência de genealogia? Pela escassez de ancestralidade? Por não saber como montar sua história contemporânea? Por não ter sido achado tão cedo? Naquele redemoinho de conjecturas sua esperança sempre alimentava um alívio. Um belo dia, seu colo encheu-se de alegria, quando cartas, documentos de familiares e relatos de sua meninice lhes foram presenteados pelo tio Toinho.  Coincidência? 

                   A separação dos pais foi mais um questionamento para o silêncio do menino responder. Pensativo, quer descobrir o mistério das pessoas, os sentimentos e as intenções.  Xico, sete anos, aquele velho menino, pequeno e franzino, às vezes, passava despercebido enquanto percebia tudo. Ele não bisbilhotava, era atento.  Denominou a separação dos pais de eclipse. Já havia visto o eclipse lunar e associou a escuridão ao fato. O velho não quis tempo de pensar nem ouvir explicações ou argumentos, inventou de mudar-se para Bocaina. O velho era o poder. A mãe presenciou o pai carregar os três filhos numa carga só. Prevaleceram suas birras...  Conselhos do avô paterno regularizaram tal situação em pouco tempo, enquanto seu neto tocava pra frente seus questionamentos sobre o fato. “Quem sabe o que a vida reserva a cada um? Quantos eclipses? Quantos clarões? Quantas voltas? Quem adivinha como e em que se transformará a criança?“ Aqui está um ás da compreensibilidade: “Se condeno uma coisa, não a compreendo, e condenar é uma forma de evitar qualquer espécie de compreensão.” Ele não ouviu essa assertiva do mestre Krishnamurti, àquela época, mas sua cabeça já transitava por aí. Grande Xico!

              O leitor que acompanhou o percurso do menino quase perdido, por certo auscultou seu solilóquio, apostou em sua essência, participou das rodas de conversa em família – “ali estava o bisneto de Mãe Ana: piedoso, amável, solidário e justo”. Xico era grudado nas origens. Um menino iluminado, pensativo, questionador, obediente, apaixonado pela mãe - “ela é sempre o maior e o melhor personagem do filho.” Era vaidoso do pai, enfim, o sobrenome Família lhe cairia bem. Havia em seu comedimento natural, em sua introspecção pura, a força de um herói mirim. Cintilava naquele menino quase perdido, o projeto de um homem feito, quiçá, antes da hora.

               O primeiro contato com a escola se deu sobre o chão batido e sob a sombra frondosa de um juazeiro. Uma escola panorâmica e ecológica, há tempos. Xico já convivia com os sete anos de idade e muita estrada.  Apenas um mês na escola, de manhã e de tarde, era o tempo suficiente para os alunos mais inteligentes aprenderem a escrever e a ler uma carta, além da tabuada de cor e salteada. Mestre Miguel era “desarnador”. Seu filho nunca foi bom de conta, mas com relação à leitura sempre foi desembaraçado. “Cada vivente nasce para alguma coisa. Eis que precisa descobrir justamente essa tendência. E então terá sorte e será feliz”. Que pensamento avançado!  Intuitivamente o menino já se aproximava da Lei do Darma ou do propósito de vida, conforme Deepak Chopra.

                 Eis o menino quase professor, ensaiando os primeiros passos como mestre-escola, aos 14 anos. Além das obrigações profissionais fazia poesia e namorava as alunas...  Apaixonou-se por várias delas até os 16 anos, por aí.  “Ninguém sabe contar uma paixão, mas qualquer um saberá vivê-la.” Ainda meninote seu ser ensaiou passos para o futuro adolescente e um sem número de nomes de mulher rondou as emoções do garoto. Cada uma gerava uma empolgação diferente.  Apesar de sentir que a adolescência lhe entrou como um furacão e que tinha dentro de si uma poesia enorme, era por demais conflitante. O que é um namoro? O que é ser estimado? Xico soube imaginar muito, sonhar muito, procurar sem saber onde. Mas a felicidade só existe como um estado de espírito. E se é assim, Xico teve uma infância feliz. Abrigava em si os arrufos infantis, pré-adolescentes. Era romântico, sentimental e lírico. Não era chegado a amuos. Ao se juntar aos primos e meninos das redondezas, das casas dos avós e tios, caía nas brincadeiras divertidas, a valer. Uma delas era imitar os grandes... O faz de conta.

               No fundo daquele coração infantil e sutil que assuntava o tempo, o tempo todo, piscava um buquê de esperanças no aguardo do acervo de sua história que habitaria o baú das lembranças. Xico tanto desejou e conviveu com esse sonho diuturno, que trouxe consigo, nas passadas de seus anos de vida, o deslumbramento que fez florescer o gigante Francisco Miguel de Moura - da penúria à poesia. “É preciso crer no que escrevo para saber onde eu nasci.” O biografista entalhou com letras todas as figuras amantíssimas e críveis da história de Xico.

               O menino quase perdido anuncia o fim da infância: O menino-velho. Os conflitos da adolescência. A ausência da alegria verdadeira. Há tantas mudanças que seria como se sentir sem identidade. Um horror. Felizmente, aquele menino não mais continua a “fazer pegadas na areia, chorando como uma criança medrosa, quase perdida.” Suas pegadas já se encontram gravadas nas páginas dos livros que contam histórias, inclusive a sua própria história. Eis o que se deve entender por utopia: O estado ideal estabelecido. 

                E para concluir o passeio pelas trilhas do menino quase perdido é bom que se diga que o advérbio que ronda sua história teve efeito contrário: de tanto quase nada de bom em sua vida, o menino se aliou à paciência: “A paciência torna mais leve o que a tristeza não cura”, deve ter-lhe confidenciado Horácio.  Apesar dos pesares, tornou-se expert em autoavaliação e em desvendamento de enigmas. Cogitativo. Aquele menino, sob a ótica da memória, da razão e da poesia que sempre o habitaram, não teve uma quase vida, mas uma vida quase superlotada de várias outras que ele aceitava, paulatinamente, e as transformava em elos, porque agregar sempre foi a sua tônica. Muito embora as fases de muito aperto é possível que aquele menino não tivesse a consciência do quase.

              A trajetória infanto-juvenil, um tanto adulta, de Xico, com o apoio de seu coração que suportava os trancos, protegendo sua compleição física, frágil e suas emoções revoltas, demonstraram que sua essência espiritual-intelectiva já veio fortalecida quando desembarcou neste Planeta. Sua nítida obstinação pela vida e pelo seu redor o conduziu ao ato e escrever, seu Darma – seu verdadeiro lugar na vida. E assim aconteceu, jamais por acaso. E assim Xico continua semeando letras que ilustram histórias de vida, em campos germinadores.

_________________
 *Bernadete Maria Andrade Ferraz, poeta e ensaísta piauiense, tem formação acadêmica em Letras pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e pós-graduação em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica (PUC)  de Minas Gerais.

2 comentários:

Sensibilidade a navegar com poesias disse...

Amei seu Blog, seus escritos...parabéns...te desejo um Feliz natal e próspero Ano Novo, junto aos seus...

Janice Adja disse...

Todo mudança tem conflitos.
Beijos!!!
Se possível retire as letrinhas dos comentários elas só servem para atrapalhar.
com esta tentativa vai a quarta vez e nada.

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